Artigo de Opinião: presidente da AMRIGS, Dr. Gerson Junqueira Jr.
A expansão do número de cursos de Medicina no Brasil nas últimas décadas trouxe à tona um debate essencial para o futuro da assistência à saúde: a qualidade da formação médica. Embora ampliar o acesso à graduação possa contribuir para reduzir desigualdades regionais na oferta de profissionais, a criação de escolas sem infraestrutura adequada representa um risco não apenas para o processo educacional, mas também para a segurança dos pacientes atendidos por esses futuros médicos. A ampliação sem planejamento compromete a qualidade da preparação profissional e exige atenção das instituições responsáveis pela regulação do ensino superior.
Entre os principais desafios observados em parte dos cursos recém-criados estão a ausência de hospitais-escola estruturados, campos de prática insuficientes para o número de estudantes, laboratórios incompletos e dificuldade para manter um corpo docente experiente e dedicado ao ensino. A graduação em Medicina exige vivência clínica supervisionada e contato contínuo com diferentes níveis de complexidade do sistema de saúde. Quando esses requisitos não são atendidos, a formação tende a se tornar fragmentada, limitando o desenvolvimento das competências médicas.
A precarização do ensino impacta diretamente no atendimento prestado à população. A Medicina exige conhecimento científico sólido, capacidade de tomada de decisão e treinamento prático permanente. Quando a formação apresenta lacunas, aumenta o risco de erros diagnósticos, condutas inadequadas e dificuldades no manejo clínico. É preciso lembrar que o médico lida diariamente com vidas humanas. Esse cenário evidencia que fragilidades na formação não permanecem restritas ao ambiente acadêmico, mas se refletem diretamente na qualidade da assistência em saúde.
Diante desse contexto, mais do que listar estruturas necessárias, é fundamental assegurar que o processo formativo ocorra de maneira integrada e supervisionada. A articulação entre ensino, serviço e comunidade, aliada a um número de vagas compatível com a capacidade de formação, é determinante para garantir acompanhamento qualificado ao estudante, especialmente no internato, etapa decisiva na consolidação das competências médicas.
Outro ponto relevante nesse debate é a avaliação do conhecimento na área. A Associação Médica do Rio Grande do Sul (AMRIGS) realiza, há 54 anos, a Prova AMB/AMRIGS, um dos maiores processos seletivos de acesso à Residência Médica do país, realizado em parceria com a Associação Médica Brasileira (AMB). O exame tornou-se referência nacional ao valorizar o mérito acadêmico e incentivar a busca por formação consistente e atualização científica. Os resultados da edição de 2025 corroboram a importância do ensino de qualidade ao analisarmos o ranking das nossas escolas.
Nesse cenário, também cresce a discussão sobre mecanismos adicionais de avaliação profissional, como a proposta do Exame Nacional de Proficiência em Medicina – Profimed. Qualquer iniciativa nessa direção precisa ser construída com critérios técnicos consistentes, diálogo institucional e foco permanente na qualificação da formação.
Formar médicos competentes não é apenas uma questão acadêmica. Trata-se de uma responsabilidade social que impacta diretamente a vida de milhões de brasileiros e sustenta a confiança da sociedade na Medicina.
Dr. Gerson Junqueira Jr.
Presidente da AMRIGS
Sobre a AMRIGS
A Associação Médica do Rio Grande do Sul é uma organização sem fins lucrativos voltada para a atualização do conhecimento técnico-científico e para a realização de debates científico-culturais relacionados à saúde, à Medicina e à vida profissional. Desde o momento de sua fundação em 1951, a AMRIGS integra a vida do médico em todas as etapas da profissão, tendo como objetivos:
- Fomentar a ciência e a cultura médica;
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- Fortalecer o associativismo e a representatividade médica;
- Ser influenciadora como entidade protagonista de ações em prol da saúde.