Documento lançado durante o 7º InfectoTchê propõe união entre entidades médicas, sociedade civil, gestores e serviços de saúde para ampliar prevenção, testagem, tratamento e combate ao estigma da doença no RS
A Associação Médica do Rio Grande do Sul (AMRIGS) foi uma das principais apoiadoras e articuladoras da construção da Carta de Porto Alegre, documento da Aliança Gaúcha pelo Enfrentamento do HIV apresentado durante o segundo e último dia do 7º InfectoTchê, neste sábado, dia 23 de maio, no Hotel Hilton Porto Alegre. Atenta à relevância do tema para a saúde pública, a entidade contribuiu para aproximar diferentes especialidades médicas, instituições, gestores, profissionais da saúde, organizações sociais e representantes da sociedade civil em torno de um compromisso coletivo para ampliar a prevenção, qualificar a informação, fortalecer o acolhimento e garantir maior acesso ao cuidado da doença no Rio Grande do Sul.
O presidente da AMRIGS, Dr. Gerson Junqueira Jr., destacou que a Carta de Porto Alegre simboliza uma mobilização construída a muitas mãos, com base na ciência, na responsabilidade social e na atuação integrada. Segundo ele, a iniciativa nasceu a partir de uma preocupação apresentada pela Sociedade Gaúcha de Infectologia (SGI) e ganhou força com a adesão de sociedades médicas e áreas como Coloproctologia, Ginecologia, Urologia, Pediatria, Dermatologia, Reumatologia, Cirurgia Geral, Medicina de Família e Comunidade, Medicina Interna, entre outras, consolidando uma frente multidisciplinar para enfrentar o HIV no Estado.
“Entendemos que a Associação Médica poderia atuar como catalisadora das demais sociedades médicas, construindo ações conjuntas e reunindo diferentes especialidades em torno da Carta de Porto Alegre. Também buscamos apoio político e institucional, com a Secretaria Estadual da Saúde, o Governo do Estado, a Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre, a Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul (FAMURS) e outras instituições, porque esse manifesto precisa se transformar em medidas concretas”, afirmou.
O documento defende medidas como expansão da testagem universal, diagnóstico precoce, fortalecimento do tratamento contínuo, acesso descentralizado à Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) oral e injetável, promoção de atendimento livre de discriminação e integração entre instituições da sociedade civil, públicas e privadas.
“A Carta de Porto Alegre representa uma construção coletiva e necessária. Ela reúne ciência, responsabilidade social e compromisso humano para que o Rio Grande do Sul avance na prevenção, no diagnóstico e no tratamento, sem deixar ninguém para trá.”, afirmou o presidente da SGI, Dr. Dimas Alexandre Kliemann.
O presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), Dr. Ricardo Diaz, destacou a importância de manter o HIV e a Aids na agenda pública, científica e institucional.
“Em 45 anos de enfrentamento da doença, vimos surgirem novas urgências, como pandemia, aquecimento global, hepatites e outras ameaças à saúde pública. Mas, enquanto não houver um esforço permanente para manter o HIV e a Aids como prioridade, não vamos conseguir avançar como precisamos”, afirmou.
Alberto Duarte, representante do Grupo de Apoio à Prevenção à Aids (GAPA) e da sociedade civil, alertou para o impacto da redução das ações educativas
“As campanhas de informação deixaram de existir, e isso tem consequência direta na prevenção. No início da epidemia, falávamos em morte civil, porque a sociedade decretava a exclusão das pessoas com Aids antes mesmo da morte física. Hoje, essa morte civil segue presente quando populações pretas, pardas, periféricas e pobres, além de pessoas gays, transexuais, travestis, pessoas em situação de rua, usuários de drogas e população privada de liberdade, continuam sem acesso adequado aos serviços de saúde e a outras políticas públicas. Essa ausência leva à infecção, ao diagnóstico tardio, ao adoecimento e à morte”, explico.
A diretora do Departamento de Gestão dos Hospitais Estaduais (DGHE) na Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul (SES-RS) e representante do Governo do Estado do RS, Letícia Ikeda, destacou que a resposta ao HIV no Rio Grande do Sul passa pelo desenvolvimento da rede de atendimento e assistência, com investimentos em serviços regionais e programas voltados a públicos estratégicos, como jovens e mulheres.
“Temos serviços funcionando em várias regiões do Rio Grande do Sul, com investimentos importantes da Secretaria Estadual da Saúde. Além disso, trabalhamos com programas como o Geração Consciente, voltado aos jovens, e o Ser Mulher, sempre buscando tratar o HIV e as ISTs de forma transversal. O objetivo é ampliar a cobertura do cuidado, da prevenção e da assistência para a população”, salientou.
Durante o 7º InfectoTchê, a pauta do HIV esteve presente em diferentes debates da programação científica, aproximando evidências recentes da prática assistencial. A mensagem central da Carta ressalta que nenhuma pessoa deve ser definida por um diagnóstico e que o combate ao estigma é parte essencial da resposta em saúde pública.
Íntegra da Carta de Porto Alegre – Aliança Gaúcha pelo Enfrentamento do HIV
“Nós, gaúchos e gaúchas, profissionais da saúde, ativistas, gestores públicos, entidades médicas, organizações sociais e cidadãos comprometidos com a vida, nos unimos para dizer que não aceitaremos mais que o HIV siga roubando futuros, ampliando desigualdades e silenciando pessoas no Rio Grande do Sul.
Vivemos em um estado marcado pela solidariedade, pela coragem e pela capacidade de reconstrução. É com esse mesmo espírito que escolhemos enfrentar uma epidemia que ainda machuca milhares de famílias, especialmente aquelas mais vulnerabilizadas pelo preconceito, pela desinformação e pela dificuldade de acesso ao cuidado. Sabemos que ninguém vence essa luta sozinho. O HIV não pode ser enfrentado com medo, julgamento ou indiferença. Ele deve ser enfrentado com ciência, acolhimento, união e humanidade.
Hoje, a ciência nos oferece ferramentas capazes de mudar o rumo dessa epidemia. Temos condições de ampliar a testagem para todas as pessoas, garantindo diagnóstico precoce e acesso rápido ao tratamento. Temos a possibilidade de expandir a prevenção combinada, incluindo preservativos, educação em saúde, PrEP oral e PrEP injetável de longa duração. Sabemos que pessoas em tratamento e com carga viral indetectável não transmitem o HIV. Sabemos que salvar vidas depende de acesso, informação e cuidado contínuo.
Por isso, assumimos juntos alguns compromissos fundamentais:
* Levar informação de qualidade e combater o estigma relacionado ao HIV
* Ampliar a testagem universal e o diagnóstico precoce em todo o estado
* Garantir acesso amplo, digno e descentralizado à PrEP oral e injetável
* Fortalecer o tratamento imediato e contínuo para todas as pessoas vivendo com HIV
* Promover cuidado humanizado, livre de discriminação e preconceito
* Integrar sociedade civil, serviços de saúde, universidades, entidades médicas e gestores públicos em uma resposta coletiva
* Escutar e acolher as pessoas vivendo com HIV, reconhecendo sua dignidade, sua voz e seus direitos
Acreditamos que nenhuma pessoa deve ser definida por um diagnóstico. Toda vida importa. Toda pessoa merece cuidado, respeito e oportunidade de viver plenamente. A luta contra o HIV não pertence apenas à medicina ou aos governos — ela pertence a todos nós.
A Carta de Porto Alegre nasce como um chamado à ação e à esperança. Um compromisso coletivo do povo gaúcho com a vida, com a ciência e com o futuro. Porque somente unidos conseguiremos transformar a realidade do HIV no Rio Grande do Sul.
E porque ninguém pode ficar para trás.”
Redação: Marcelo Matusiak
Sobre a AMRIGS
A Associação Médica do Rio Grande do Sul é uma organização sem fins lucrativos voltada para a atualização do conhecimento técnico-científico e para a realização de debates científico-culturais relacionados à saúde, à Medicina e à vida profissional. Desde o momento de sua fundação em 1951, a AMRIGS integra a vida do médico em todas as etapas da profissão, tendo como objetivos:
- Fomentar a ciência e a cultura médica;
- Promover a defesa profissional;
- Fortalecer o associativismo e a representatividade médica;
- Ser influenciadora como entidade protagonista de ações em prol da saúde.