Encontro reuniu especialistas para discutir tecnologias, mercado de trabalho, exercício profissional e perspectivas em diferentes áreas cirúrgicas
A cirurgia atravessa um período de rápidas transformações, impulsionadas por novas tecnologias, técnicas menos invasivas e mudanças na prática médica. Esse cenário esteve em debate no VII Congresso do Departamento Universitário da Associação Médica do Rio Grande do Sul (VII CDU AMRIGS), realizado neste sábado, 22 de agosto, no Auditório da AMRIGS, em Porto Alegre. Com o tema “Cirurgias e suas áreas: avanços, desafios e perspectivas”, a programação aproximou estudantes de Medicina de especialistas de diferentes segmentos cirúrgicos.
Na abertura, dirigentes da entidade ressaltaram o papel do encontro na trajetória acadêmica e no contato dos jovens com diferentes possibilidades de carreira.
“O CDU já é um encontro tradicional e, neste ano, traz temas de Cirurgia Geral, Aparelho Digestivo, Trauma e Vascular. Queremos contribuir para uma formação de qualidade, com conhecimento técnico e científico e uma Medicina cada vez mais resolutiva para a sociedade”, declarou o presidente da AMRIGS, Dr. Gerson Junqueira Jr.
A presidente do Departamento Universitário da AMRIGS, Isadora Pasini, lembrou que a iniciativa estimula o intercâmbio entre universitários de diferentes instituições e amplia o contato com conteúdos técnico-científicos.
“O DU aproxima acadêmicos de Medicina de diferentes universidades, promove troca de experiências, atividades técnico-científicas e fortalece a participação estudantil. Para mim, este congresso também é especial por ser o último à frente da organização”, descreveu.
Ao recordar as sete edições, o coordenador do DU e diretor de Comunicação da AMRIGS, Dr. Marcos André dos Santos, valorizou o protagonismo dos universitários na construção e no amadurecimento da programação.
“Chegamos ao 7º CDU com uma história construída, em grande parte, pelos próprios acadêmicos. A cada edição, o Departamento Universitário assumiu a organização e ajudou a consolidar o congresso, aprendendo também com os desafios do caminho”, salientou.
Cirurgia Vascular entre o presente e o futuro
A programação científica começou com o diretor Científico e Cultural da AMRIGS, Dr. Guilherme Napp, e a cirurgiã vascular Carolina Stapenhorst. A discussão percorreu as mudanças que vêm redesenhando a especialidade, desde a incorporação de técnicas mais precisas até novas possibilidades de exercício profissional.
Dr. Guilherme detalhou o percurso necessário para ingressar na área, os caminhos disponíveis ao longo da carreira e segmentos tradicionais como Angiologia, Cirurgia Endovascular e Ecografia Vascular. Ao falar sobre a rotina médica, chamou atenção para exigências que mudam conforme o momento profissional.
“Os desafios acompanham toda a carreira cirúrgica. Para quem está começando, pesam a formação longa, os investimentos e a entrada no mercado. Já para o profissional estabelecido, atualização tecnológica, gestão e qualidade de vida exigem atenção permanente”, afirmou.
Dra. Carolina Stapenhorst trouxe outro olhar sobre a especialidade ao tratar de frentes que vêm ganhando espaço, entre elas o manejo do lipedema e procedimentos de harmonização de pernas, coxas e glúteos. Segundo a médica, atividades que antes contavam com maior presença de profissionais não médicos passaram a despertar interesse crescente entre cirurgiões vasculares.
Urologia incorpora novas tecnologias
O urologista Juan Victor Paiva mostrou como equipamentos, técnicas minimamente invasivas e novas plataformas já fazem parte da rotina da Urologia, contribuindo para diagnóstico, definição terapêutica e recuperação dos pacientes.
Entre os temas discutidos esteve a hiperplasia prostática benigna, condição frequente entre os homens e que pode provocar alterações importantes no cotidiano. Aumento da frequência urinária, perda de urina e necessidade de levantar diversas vezes durante a noite estão entre os sintomas que podem comprometer o bem-estar. O médico esclareceu ainda uma dúvida comum: crescimento benigno da próstata e câncer de próstata são condições distintas.
“Mais de 60% dos homens podem apresentar aumento da próstata e, em muitos casos, isso já causa prejuízo na qualidade de vida. O paciente pode precisar ir ao banheiro muitas vezes, ter perda de urina e acordar várias vezes durante a noite. É importante entender também que hiperplasia e câncer de próstata são doenças diferentes. Ter uma próstata aumentada não significa ter câncer”, explicou o urologista.
Caminhos profissionais na Cirurgia do Aparelho Digestivo
O cirurgião Omero P. Costa Filho mostrou aos acadêmicos os diferentes caminhos oferecidos pela Cirurgia do Aparelho Digestivo. A abordagem passou pela preparação necessária para ingressar na especialidade, pela rotina médica e pelas alternativas disponíveis ao longo da trajetória profissional.
Um dos pontos enfatizados foi a certificação como instrumento de qualificação e compromisso com a sociedade.
“Em qualquer carreira que vocês forem seguir, é fundamental pensar na certificação. É ela que dá garantia de qualidade perante a sociedade”, orientou.
Do bisturi às plataformas robóticas
No período da tarde, o cirurgião oncológico Lucas Filippi conduziu a palestra “Do Bisturi ao Robô – O que Realmente Faz a Diferença na Cirurgia Oncológica em 2026”. A evolução dos procedimentos serviu como ponto de partida para uma reflexão sobre os limites e as possibilidades das novas ferramentas aplicadas à assistência.
O conteúdo ressaltou que a incorporação tecnológica precisa caminhar ao lado do conhecimento médico, do planejamento e da escolha criteriosa de cada abordagem. Entre as informações apresentadas esteve a estimativa de que uma em cada cinco pessoas desenvolverá câncer ao longo da vida, conforme dados da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, vinculada à Organização Mundial da Saúde (OMS).
“Vocês serão a primeira geração que vai conviver, na prática, com uma oferta tecnológica crescendo mais rápido do que as próprias evidências. A cirurgia continuará tendo um papel fundamental no tratamento do câncer, mas será cada vez mais necessário conhecer as opções disponíveis, avaliar criticamente as novidades e saber escolher o que realmente traz benefício ao paciente”, alertou Dr. Lucas.
Trauma exige decisões rápidas
Encerrando o ciclo de palestras, a cirurgiã do trauma Mariana Kumaira abordou características próprias desse segmento e diferenças que costumam gerar dúvidas entre estudantes, principalmente na comparação com Ortopedia e Traumatologia.
“A Ortopedia e Traumatologia é uma especialidade de acesso direto voltada ao diagnóstico e tratamento de problemas relacionados ao aparelho locomotor, incluindo lesões em músculos, articulações e ossos, além das fraturas. Já a Cirurgia do Trauma concentra-se no atendimento aos pacientes vítimas de acidentes e diferentes formas de violência. Quando falamos em trauma, estamos falando das chamadas causas externas, que incluem principalmente os acidentes e as violências”, pontuou.
Outro aspecto destacado foi a imprevisibilidade do atendimento. Diferentemente de procedimentos eletivos, muitas vítimas chegam sem diagnóstico previamente estabelecido, o que exige avaliação ágil, definição de prioridades e decisões rápidas diante de situações potencialmente graves.
Ciência e integração acadêmica
Além das palestras, o VII CDU AMRIGS reservou espaço para apresentação de trabalhos científicos, incentivando estudantes a compartilhar pesquisas e experiências produzidas durante a graduação, e premiando os melhores projetos. O primeiro lugar ficou com Bárbara Garcia, autora de “O efeito da distância na cirurgia oncológica: uma análise epidemiológica de deslocamento e estadiamento de pacientes no SUS”. Na segunda colocação, Luís Matheus Correia Lobo foi premiado pelo estudo “Mortalidade hospitalar após apendicectomia no Sistema Único de Saúde (SUS): análise regional de 2015 a 2025”. Ana Julia Souza conquistou o terceiro lugar com “Tendência da mortalidade hospitalar após transplante cardíaco no Rio Grande do Sul e no restante do Brasil, 2008 a 2025”.
A agenda foi concluída com sorteio de brindes e momentos de integração entre participantes e convidados.
Ao reunir profissionais experientes e jovens em início de carreira, o Congresso do Departamento Universitário da AMRIGS proporcionou contato direto com diferentes realidades da prática médica e ampliou a compreensão sobre escolhas profissionais, qualificação e transformações tecnológicas. Para saber mais ou fazer parte do DU AMRIGS, acesse o link https://www.amrigs.org.br/
Redação: Marcelo Matusiak
A Associação Médica do Rio Grande do Sul é uma organização sem fins lucrativos voltada para a atualização do conhecimento técnico-científico e para a realização de debates científico-culturais relacionados à saúde, à Medicina e à vida profissional. Desde o momento de sua fundação em 1951, a AMRIGS integra a vida do médico em todas as etapas da profissão, tendo como objetivos:
- Fomentar a ciência e a cultura médica;
- Promover a defesa profissional;
- Fortalecer o associativismo e a representatividade médica;
- Ser influenciadora como entidade protagonista de ações em prol da saúde.